Posted by Mons. Lusignan

transfiguration

Para Maior Glória de Deus


Ouvimos hoje a continuação da história do antigo testamento no seguimento do domingo anterior, ligado a Noé e à Arca onde a criação foi preservada. A mesma arca onde Moisés foi colocado no Nilo e que se tornou, no decurso da história a Arca da Aliança que no nosso altar é representada pelo tabernáculo ou Sacrário. O local dentro do Santo dos Santos onde se preserva a realidade concreta da divindade transubstanciada. Entendamos as arcas também num sentido concreto, como sendo as nossas próprias arcas presentes nos nossos corações.

A Arca, que representa nossa própria barca, usada para navegar os mares erráticos a que algumas tradições chamam “a corrente”. A corrente que arrebata a maioria dos homens, afogando-os na sua imensidão. A barca que nos permite escapar dela e que devemos procurar construir para albergar nela todas as afirmações e certezas, baseadas na experiência ganha através dos princípios virtuosos que devemos estimular e que são representados em Noé pelos animais em pares. Duplas potências germinadoras existentes em todas as coisas enquanto essências primordiais.

Este pensamento liga-se hoje de forma concreta à transfiguração. Isto é a mudança da figura associada à metamorfose, à passagem, ao período quaresmal, cuja duração equivale aos 40 dias que Noé navegou sobre as águas do dilúvio, até tocar a “nova terra” no monte Ararat (terra santa), sinal da renovada qualidade atingida pela passagem das tormentas. A nova terra, o novo estado do ser, o monte enquanto altar onde Abraão se dispõe a sacrificar aquilo que de mais valioso tinha, o seu filho. O monte simbólico onde o próprio Deus, que poupa Isaac, usará para o sacrifício do seu próprio filho; conforme veremos no decurso desta caminhada espiritual de compreensão quaresmal.

Hoje porém, deter-nos-emos no Tabor, palavra hebraica que significa montanha elevada e também umbigo. Este significado associa-se claramente ao aspecto solar: é no alto dos montes que o sol brilha sem sombra, e é pelo umbigo, centro de Ara que recebemos os dons da vida. Este Tabor, simboliza assim o alto estado de consciência adquirido ao longo do nosso próprio processo de reunião com Cristo. O estado, em que mesmo rodeados pelas trevas da noite, que faz a luz prevalecer. Estado místico em que o fluxo divino penetra a alma, fazendo o corpo reagir a essa energia, iluminando-se. O estado de Glória e de união relatado pelos nossos pais e mães místicos como o fogo trespassante, as trevas reluzentes ou a luz que dá vista aos cegos. O exemplo da transfiguração mostra que é possível a cada um de nós, seguidores de Cristo, atingir esse ponto de plenitude através da elevação dos pensamentos e dos actos.

Esta transfiguração apresentada em Marcos, em que o Corpo de Cristo se ilumina perante os seus três discípulos: Pedro, Tiago e João, representa a manifestação da essência presente dentro do próprio tabernáculo de Jesus, representado na nossa eucaristia pela frase: “corações ao alto”. Corações e mentes ao alto. Coloquemos a nossa mente em Deus. “demos graças ao Senhor Nosso Deus”. Os três apóstolos representam as três qualidades humanas que devemos sublimar de modo a vermos os corpos não como carne, mas como verdadeiros centros de beleza, de força, de perene juventude incorruptível; enfim, como verdadeira essência da criação divina. Pedro representa a Fé, João o Amor e Tiago a Justiça, estando assim em relação directa com Elias, Jesus e Moisés. Os apóstolos são a imagem física dos arquétipos superiores. A cristalização ainda deformada ou em desenvolvimento dessas virtudes.

Os seis formam dois triângulos. O de cima respeita à parte super-consciente e o de baixo à consciente, encontrando-se ambos em relação.

Moisés e Elias caracterizam os dois caminhos que conduzem ao Amor. O respeito pelos ensinamentos e pela lei e a habilidade de discernir a verdade da falsidade. Moisés trás a Lei e Elias vem para restaurar todas as coisas. Ambos prefiguram a nova lei e a nova verdade representada por Cristo: O amor de que João é símbolo.

Em seguida à transfiguração, Pedro propõe a construção de três tabernáculos que serviriam para alojar as três formas gloriosas, mas ele ainda não estava preparado para as receber e por isso nos é dito que “ele não sabia o que dizia”, a que se seguiu a voz vinda do céu à imagem do Baptismo que disse “Este é o Meu Filho muito amado, escutai-o”. Ou seja não o tenteis explicar. Escutai-o, não o questioneis. Tentai entendê-lo.

Por fim temos a advertência que diz: “não conteis nada do que vistes ou ouvistes até que eu desperte dos mortos”. Que frase rica e tão bem guardada.

Que imagens e sons são esses? O que quer isto dizer? Quer dizer que não devemos considerar as imagens como realidades. Mas como percepções. Estas imagens e realidades que estão para lá do mundo físico, aquelas dos sonhos, das visões, as que se atingem nos estados alterados de consciência por via da contemplação. Estas são as que deveremos guardar dentro de nós até que façam sentido, até que se ordenem e façam sentido. Até ao momento em que atinjamos esse estado de novo homem, de homem transfigurado.

Por fim gostava de referir dois conceitos que se relacionam com a transfiguração: a transmutação e a transubstanciação.

Um porque é caminho, outro porque é forma real.

As transmutações, que conhecemos geralmente através dos estudos alquímicos, pressupõem uma mudança de um estado inicial para outro completamente distinto, mais evoluído. Podemos assim dizer que em cada um de nós esse processo se vai dando pelo progressivo incremento do nosso suporte físico e mental, por modo de um método espiritual.

Se a própria ciência nos diz que todo o universo é feito de uma energia que dissolvida poderá voltar a ganhar forma, esquece a chave suplementar que as escrituras nos dão apontando o homem como centro cooperante da própria criação, e especialmente o papel de Cristo enquanto força dominante de toda a Natureza humana e sobre-humana. Os relatos em que ele que manifestou o seu poder, ainda que de forma ínfima, dando vida aos mortos, multiplicando os pães e os peixes, apresentam-nos a realidade da Sua presença. Esta toma especial valor no momento em que ele próprio eleva o seu corpo a um nível energético sem igual até então, mas presente potencialmente em toda a vida e substância criada. Sim ele tem esse poder. O poder de mudar a substância, de a elevar a um estado de tal forma potente que pode, por si só, alterar o que a recebe.

Este ponto leva-nos à transubstanciação. Ponto essencial da nossa Fé e base do cristianismo que segue o preceito do nosso Mestre, Jesus.

Esta parte da doutrina, entenda-se: sistema ou conjunto de pontos que fundamentam ou criam solo para nossa frutificação ou construção, diz-nos que através da consagração, efectuada pelo sacerdote, das espécies apresentadas ao altar santo, se dá uma mudança de estado nos elementos sem que eles mudem de aparência. Tal advém, como sabemos, do memorial estabelecido por Cristo na Ceia que celebramos na quinta-feira Santa, onde ele próprio ensinou, consagrou e deu o poder de consagrar aos seus apóstolos, o pão e o vinho como parte integrante de Si mesmo. Ele não disse que o pão e o vinho eram símbolos do seu corpo e sangue, mas sim que ambos possuíam as qualidades indispensáveis capazes de veicular, através da consagração, a sua dupla essência corporal e vivificadora.

O tema não é portanto uma questão de crença mas sim uma capacidade de compreensão da sabedoria divina. Não se trata de superstição ou de milagre. Chegará até o dia em que a ciência descobrirá aquilo que nós já sabemos desde a antiguidade. Que a mente preparada e munida do dom necessário, modifica através da vontade a matéria. Tal não nos surpreenderá, dado que hoje já é conhecida a unidade da matéria e a possibilidade da sua transformação através da mudança organizativa dos electrões no interior dos átomos.

Até lá, entendamos que o pão tipifica o corpo físico, material e simultaneamente o próprio corpo Crístico. E o vinho o sangue vivificador.

A sua conjunção em alimento por cada um de nós tipifica não só o sistema imaterial da revelação gloriosa individual, mas acima de tudo o processo purificador das nossas mentes e dos nossos corações das corrupções físicas, de pensamentos e de acções, transformando-nos progressivamente numa fonte de abundância vivificante que emana da nascente que é Cristo.

Através da assimilação física da substância que contém a vida eterna, Substância viva e verdadeira que emana de Deus por intercessão do seu Filho, vai ocorrendo em cada um de nós um fenómeno extraordinário que consiste na harmonização de todas as fibras do nosso corpo com o Redentor. Essa remição progressiva, modifica gradualmente a nossa mente e os nossos corações, tornando-nos brancos como a neve, e cristalinos como os mais puros cristais.

Esta prática sacramental, repetida em consciência, desperta em cada um a luz viva representada pela transfiguração. É por tudo isto que a Ecclesia considera este sacramento como o maior tesouro deixado por Cristo. O tesouro que descoberto e usado nos cobre com as riquezas da vida eterna.

Ámen,

Mons. +Lusignan