Posted by Mons. Lusignan

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 Para Maior Glória de Deus

O Evangelho de João, como sabemos é particularmente rico na forma narrativa, permitindo aos despertos e aos conhecedores dos significados simbólicos que apresenta, retirar dele grandes lições morais e exegéticas. Na verdade João, o novo Yokanaan, anunciador do novo Reino, discípulo amado e místico por excelência, apresenta o seu conjunto de textos num entrelaçado que, pouco a pouco, revela a missão do povo cristão que espera alcançar a unidade com Cristo, verdadeiro Logos, verdadeiro Verbo, Verdadeiro Deus.

Hoje a nossa meditação foca-se naquele que consideramos ser uma das maiores mensagens do novo testamento. A que se relaciona com Lázaro.

Para bem enquadrarmos e entendermos esta narrativa, recordemos que Marta e Maria, irmãs de Lázaro, eram conhecidas e amigas de Jesus. O termo amigo, no contexto das escritoras dá-nos a entender que ambas seriam discípulas de Cristo, seguindo-o e conhecendo a sua missão. Lembremo-nos ainda dos significados hebraicos dos nomes: Marta, Maria e Lázaro. Marta em hebraico significa, senhora ou servidora; Maria supõe um ideograma de tristeza e de amargura, e Lázaro representa aquele a quem ajuda, o socorro ou a assistência de Deus.

Não podemos também deixar de associar este momento àquele em que Marta e Maria desempenham dois trabalhos plenos de simbolismo. O serviço à mesa de Marta e a unção dos pés do Senhor, com óleo de nardo de Maria que usa o próprio cabelo para os secar. O primeiro, de serviço, fundamenta o próprio serviço de diakonia que em grego se relaciona com o serviço de ajuda aos pobres e oprimidos, representado na Igreja pelo serviço diaconal. O segundo, da unção é mais complexo. As unções no tempo de Jesus eram parte do uso comum judaico sendo usadas de várias formas. A primeira dizia respeito aos cuidados de beleza da mulher, tanto na sua higiene como complemento sensual e de atracção sexual; O segundo respeitava à hospitalidade, pois era parte da arte de bem receber, lavar os pés e ungir com perfumes os visitantes. Recordemos que naquele tempo o pó, o calor e a poeira eram constantes e que a água era um bem exíguo. O terceiro respeita ao carácter social, representado pelas unções reais e sacerdotais, sendo o quarto aspecto relacionado com a morte; pois os corpos antes de serem sepultados eram lavados e perfumados, sendo ambos os trabalhos realizados usualmente pelas mulheres.

Ambas as irmãs figuram na história desempenhando duas funções tipicamente femininas. Marta, a trabalhadora prestável que pode representar o serviço diaconal e Maria, aquela que trata da unção do Senhor. Maria, que na descrição de hoje vai ao encontro do Senhor, deitando-se ou prostrando-se aos seus pés. Desta forma a realidade da mensagem toma novas proporções. O sentido figurado adquire novos moldes que apõem Cristo a Lázaro.

A trama deste momento baseia-se em quatro momentos chave. Façamos um esboço das cenas descritas:

  • Cena primeira: A doença e a morte de Lazaro
  • Cena segunda: Conversação de Jesus com Marta
  • Cena terceira: Conversa de Jesus com Marta e com os judeus amigos
  • Cena quarta: A ressurreição de Lázaro.

Toda a história é narrada de modo a fazer jus à palavra de Cristo: “Eu sou o caminho a verdade e a vida, quem crê em mim terá a vida eterna”. Cristo deixa que a morte se apodere de Lázaro para realizar a maior de todas as Obras. Aquela da ressurreição. Para tal, Ele dirige-se com os seus discípulos para Betânia, onde enfrentava o perigo da sua própria morte, dado que os judeus o tinham tentado apedrejar, a fim de poder operar o milagre.

Os paralelos entre Lázaro e a paixão que viveremos em breve na Semana Santa são evidentes. Vejamos algumas. Jesus também será um Lázaro, porém a sua ajuda não virá pela mão do Verbo encarnado, mas sim do próprio Pai que opera por Ele e É Ele. A unção de Maria estabelece o paralelo com o lava-pés que será efectuado na quinta-feira Santa, a pedra tumular removida pelos homens tornar-se-á na pedra removida do Sepulcro do Mestre, as ligaduras e o sudário de Lázaro reaparecerão na Paixão vazias e dobradas e os óleos recordarão a fragrância da nova vida alcançada pela ressurreição.

Toda a narrativa segue a sequência: Paixão – Morte – Ressurreição. Toda a descrição aborda o grande mistério da Morte que virá a ser vencida por Cristo para sua Glória e Glória de Deus. Para tal o texto usa os paradoxos da Fé de da não-fé, dos incrédulos e dos crédulos na missão e no poder do Filho.

Entremos agora na mística do texto e tentemos perceber o relato à luz das chaves contemplativas do simbolismo Crístico.

Lázaro representa o restauro, na consciência, da ideia de juventude que se encontra dormente no subconsciente, ou seja no túmulo ou caverna da mente. Essa juventude de espírito, devido ao chamado processo de maturidade, acaba por ficar dormente. Não está morta, simplesmente está adormecida. A compreensão da realidade de Cristo, da nova vida de alegria, pretende despertá-la. Esta imagem é-nos recordada na passagem em que Jesus diz: “deixai vir a mim as criancinhas”. As crianças representam a pureza, a confiança e a alegria constantes, atributos necessários para a regeneração de cada um de nós.

 O nosso corpo não consegue renovar-se e tornar-se na verdadeira imagem e semelhança de Deus, se a nossa mente e os nossos corações estiverem presos ou ancorados em problemas e enredos constantes. Recordai os grandes problemas que tínheis enquanto éreis crianças. Tentai recordar… Recordais alguns? Não! Claro que não. Tal como os pais providenciam tudo às crianças, também Deus providencia tudo àqueles que se tornam suas crianças. Deus ama-nos como Cristo amava Lázaro.

Os nossos sentidos exteriores, tentam mostrar-nos que esta realidade está morta, que já não existe em nós. Que já passou tanto tempo desde que ela morrei que acabou por se dissolver. Mas nós sabemos que não é assim. Nós sabemos, como Cristo, que Lázaro não está morto, somente dorme e que Ele, o Senhor forte e poderoso o pode despertar desse sono profundo.

Vivificar esta vida adormecida em nós não é tarefa fácil. Todos sabemos isso. A mudança transfiguradora é sempre difícil. Abandonar uma vida em favor de outra, maior, requer muita determinação e força de vontade. Esta é representada pela poderosa frase de Cristo “Removei a pedra do sepulcro” seguida da referência ao cheiro à putrefacção do corpo. A putrefacção é o estado de apodrecimento espiritual. O estado em que a maioria do homens e mulheres vive. Mas é também o sinal da frutificação representada pela morte da semente que morrendo gera nova vida.

A pedra tumular é retirada pela fé e pela prática. A primavera espiritual do homem reside na capacidade que o mesmo possui de compreender a realidade divina e nos poderes que ela pode despertar; e no exercício da oração que pela invocação da presença invisível mas omnipresente de Deus. Ambas as formas revelam à consciência a glória do espírito a fim de que a Alma experimente, ela mesma, o novo mundo, o novo reino que até então desconhecia.

É aí, no espírito, que tudo se renova. O seu fogo renova toda a natureza. Nesse momento, em que o conceito penetra a mente, tudo é concebido e consumado. Então, toda a máquina humana realiza ou reproduz neste plano o que foi recebido de cima. É desta forma que a mente espiritual age.

Jesus, antes de ordenar que a pedra se movesse, eleva os olhos e dirige a sua prece ao Pai. Não é nesse momento que Lázaro se ergue do túmulo, não é nesse momento que a vida adormecida desperta, mas é neste momento que a mente recebe o influxo da certeza que potenciará as palavras: “Removei a pedra” e Lázaro levanta-te e anda”

A voz alta, representará então a força necessária para o ressurgir dessa criança adormecida. O trabalho extenuante e perseverante necessário para o ressurgir.

O Verbo enérgico, poderá assim apresentar a ideia, aos que iniciam o caminho místico da comunhão com o divino, que se inicia com o desejo ou a vontade percorrendo todo o caminho descendente até alcançar o seu móbil. O mesmo é dizer, citando Fernando Pessoa: “Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce.”

Por fim, Jesus alude á liberdade do Ser, quando diz “Desligai-o e deixai-o ir” A liberdade que cada um possui de se libertar das ligas, das correntes que nos prendem neste mundo físico e que impendem o renascer no novo homem. Os odres velhos e putrefactos que não suportam a fermentação do vinho novo.

Irmãos caríssimos, todos os dias ao adormecermos nos tornamos numa imagem de Lázaro. Cada acordar é uma nova hipótese que nos é dada, um novo ciclo que temos de percorrer. O objectivo desse percurso alimenta-se da nossa vontade, da nossa força e da nossa perseverança permanente, que cimenta a chegada de Cristo aos nossos corações, às nossas mentes e aos nossos corpos.

Saibamos aproveitar este dom divino através das práticas que pretendem fazer de nós não Lázaros, mas imagens vivas, pedras vivas, homens e mulheres despertas e conscientes da função que o Filho nos ensinou. Verdadeiras imitações de Cristo no Mundo.

Que assim seja.

Mons. +Lusignan